A Henna, ou o Mehandi como é chamada na Índia, é uma técnica milenar de decoração corporal completamente natural e sem contra indicações. A arte e tradição do Mehandi na Índia está presente no universo feminino em todos os momentos especiais e ritos de passagem como a gravidez e o casamento. Seus desenhos super elaborados escondem em seus traços símbolos sagrados de prosperidade, amor, e boa fortuna.
O Mehandi no casamento
A função do Mehandi em casamentos vai além da beleza ou costume social. Está associado à transição entre fases de menina para mulher, e de solteira para casada.
A cerimônia do Mehandi em casamentos indianos são conhecidos como Mehandi Rat. A noiva recebe uma festa em que ela é rodeada por suas amigas e familiares mulheres, e é decorada com motivos elaborados por uma parente ou profissional de Mehandi. O design indiano para casamento é extremamente elaborado e bonito. Cobrem a pele como densas luvas de rendas vermelhas que vão desde as unhas das mãos até os braços, e desde as unhas dos dedos dos pés até as pernas, incluindo as solas dos pés. As vezes este desenhos são aplicados por dias seguidos, conseguindo assim um mehandi sofisticado de diferentes tons. Hoje em dia também é aplicado aos desenhos de Mehandi já prontos, adesivos, strass, gliter e cores, dando um aspécto mais glamouroso à henna tradicional. O Mehandi da noiva é um símbolo de status e celebração e é um dos primeiros presentes do noivo para a noiva. Muitas vezes símbolos de fertilidade e amor como pavões, corações e mangas são incorporadas ao design.
Durante o Mehandi Rat a noiva é introduzida em sua nova vida como mulher. Suas amigas e principalmente as familiares do noivo lhes darão conselho de como agradar seu futuro marido, de como ser uma boa esposa, e o que ele espera dela. Quanto mais elaborado e detalhado os desenhos, acredita-se que melhor esposa ela será, pois como os desenhos mais elaborados demoram mais tempo para serem feitos, conclui-se que ela teve mais tempo para pensar sobre os assuntos relacionados ao amor. Todas as outras mulheres também podem receber o Mehandi nesta ocasião, porém não tão detalhadas quanto a da noiva para não competirem com sua beleza. É uma festa alegre onde todas cantam e dançam.
Em certos costumes, quando a noiva muda-se para a casa do marido, ela não faz nenhum serviço doméstico até que os desenhos de henna desapareçam. Este tempo permite que a mulher se familiarize com a nova família e encontre seu lugar nela.
O Mehandi também é bastante comum no dia-a-dia, tanto nas grandes cidades quanto no interior, porém seus desenhos não são tão detalhados e ricos quanto os do casamento.
Tradicionalmente só mulheres casadas praticam esta arte que será praticada e usada até a morte do marido, quando então é abandonada completamente. Porém a viúva poderá ser belamente ornamentada caso ela decida se jogar no fogo crematório do marido.
O Mehandi na gravidês
Assim como a henna está inserida em diversos rituais de passagem e assinala momentos especiais na vida social indiana, ela está presente também em rituais pré e pós-parto. Acredita-se que os desenhos feitos com a henna, e a própria henna em si tem o poder de deter maus espíritos e o mau-olhado que podem causar doenças, fraco laço afetivo com o bebê e sintomas de depressão pós-parto como irritabilidade, mudanças de humor, choro, culpa, anciedade, cansaço, e sentimentos de inadequação. Estes rituais tem o objetivo de proporcionar descanço, bem -estar, recuperação e reintegração à sociedade, bem como também a prevenção dos sintomas acima citados.
A tradição da henna na gravidês na India acontece tanto em regiões rurais quanto nas grandes cidades, porém são nas nas vilas do interior que os rituais se manteêm mais ricos.
No oitavo mês de gestação a mulher participa da cerimônia chamada de Athavansa, onde ela é besuntada com óleos essênciais e banhada em água perfumada. Depois ela é vestida com roupas e ornamentos novos e decorada com belíssimos desenhos de henna nos pés e nas mãos. A similaridade desta henna com a henna aplicada na ocasião de seu casamento, fazem-na relembrar daquela ocasião feliz e realizar o nascimento do filho como o fruto de um casamento bem sucedido.
Estes desenhos de henna inclui certos símbolos tradicionais de proteção e bênção que são desenhados também no chão com farinha de arroz ou areia colorida, na tradicional técnica do Rangoli. A Athavansa inclui ainda o ritual chamado de God-Bharai, onde a mulher é sentada em um assento cerimonial e seu ventre é coberto de doces e frutas por suas amigas e parentes mulheres. Todas cantam e dançam e há um grande banquete.
A aplicação de henna exige que a mulher permaneça em repouso durante algumas horas para que os desenhos recém aplicados não borrem, e a henna possa ter tempo de penetrar e tingir a pele apropriadamente. Isto evita que a mulher levante para fazer os afazeres domésticos, e permite que suas amigas e parentes ajudem a cuidar do lar e/ou das crianças mais velhas. Além de proporcionar a proteção contra maus espíritos e uma boa oportunidade de descanço, ela é comfortada em saber que tem amigas que se preocupam com ela e a encorajam a sentir-se mais bonita! Durante os dias que seguem após a aplicação da henna, enguanto a tatuagem ainda está viva e bela, a mulher está ritualmente dispensada de qualquer serviço que possa estragar os belíssimos desenhos de henna.
Logo antes de entrar na sala de parto, elas também recebem henna com símbolos de proteção, e após dar a luz ela novamente tem as pontas dos dedos dos pés e das mãos tatuados com henna numa cerimônioa chamada de Jalva Pujani. A henna é considerada um agente purificador para as impurezas provindas do processo do parto, e suas propriedades anti-sépticas naturais podem ter relação com este costume, uma vez que em regiões desérticas mais carentes do Rajastão, onde água limpa é um artigo raro, a henna era usada em preferência à agua na purificação do bebê e da mãe.
Durante os nove dias que sucedem o nascimento, a mulher é mantida isolada com seu bebê aos cuidados de parentes mulheres. Isso ajuda na sua recuperação e dá suporte físico e emocional durante o estabelecimento dos laços maternos e lactação.
No décimo dia após o nascimento, mãe e bebê saem de seu isolamento para participarem da cerimonia Suray, onde a criança é mostrada ao sol e a comunidade pela primeira vez, e o Namakarana Samskar, a cerimônia de batismo onde ela recebe seu nome. Novamente símbolos de sol são aplicados com henna na mãe e na criança, e desenhados com rangoli no chão do pátio. A mãe assim assume seu novo estatus social, neste ritual que ajuda a suavisar a transição do isolamento pós-natal ao retorno a vida cotidiana na vila.
Texto de Rosana Araújo
(Referência: Catherine Cartwright-Jones ''The Functions of Childbirth and Postpartum Henna Traditions'')











